A visão sobre Cristo (de acordo com Paulo)

De acordo com Paulo, o segundo caminho consiste em apresentar minha fragmentação a Cristo, ampliando o diálogo entre os dois “eus” para que se torne uma conversa a três, incluindo Jesus Cristo.  Diante de Jesus Cristo eu posso assumir minha fragmentação sem me dilacerar em sentimentos de culpa, e sem me colocar sob uma pressão tal que precise matar o “eu” mau sob qualquer circunstância.  Paulo acredita que a visão sobre Jesus Cristo me leva a meu ser verdadeiro e a minha totalidade.  Quando olho apenas para minha fragmentação não me liberto dela, por mais que me esforce.  Não conseguirei fazer tudo o que identifico como correto apenas com minha vontade.  Também não posso utilizar Cristo como o manancial de força que me dá a energia necessária para superar a divisão.  Posso apenas olhar para Jesus Cristo através de minha fragmentação, posso apresentar-lhe minha divisão.  Então eu percebo, no meio dessa divisão, que posso ser como sou, inclusive com meus lados sombrios e minha incapacidade de fazer o bem.  O olhar sobre Jesus Cristo me leva a mim mesmo, a minha verdadeira essência pessoal.  Então eu consigo vivenciar a totalidade.  Pois o amor de Cristo engloba os dois lados que existem em mim:  o correto e o pecador, aquele que reconheceu a lei como boa, e aquele que constantemente incorre no pecado e age contra a lei.

Quanto mais eu luto contra minha fragmentação, tanto menos coisas consigo alcançar. E, ao contrário, quando me coloco frontalmente contra minha cisão interna, desperto uma força contrária tão grande que nem consigo lidar com ela.  Conheço isso por experiência própria. Muitas vezes pensei que num momento qualquer poderia superar todos os meus erros. Aborrecia-me constantemente por incorrer sempre nos antigos erros.  Após cada recaída eu resolvia sr mais conseqüente, refletir melhor antecipadamente, para saber quando eu poderia correr o risco de repetir o erro.  Isso provocou certo efeito em mim, na direção de uma melhoria;  mesmo assim eu caía sempre de novo na armadilha.  E então eu me aborrecia novamente comigo mesmo.  Culpei a mim mesmo, rejeitei a mim mesmo e com isso aumentei mais ainda a cisão interna.

Só quando eu me apresentei a Deus, com toda a minha impotência de superar a cisão com minhas próprias forças, senti de repente uma enorme e profunda paz interior. Posso apresentar-me a Cristo como sou, verdadeiramente.  Sou totalmente amado por ele, totalmente aceito.  Isso me liberta da fragmentação interna.  De repente sinto uma grande clareza interna e uma forte harmonia comigo mesmo.  Posso me deixar cair nos braços benevolentes de Deus, e sinto nisso toda a minha totalidade, minha cura, o fim da fragmentação.

A visão sobre Cristo não pode implicar num desvio de nosso olhar de nossas facetas sombrias.  Senão a fé seria usada de forma indevida, para fugir à própria verdade.  Paulo nos estimula, com suas palavras, a nos colocarmos diante de nossa própria verdade.  Só quando apresentamos nossa verdade a Cristo, podemos reconciliar-nos lentamente com todas as facetas que não nos agradam, como nossa impotência, nossa incapacidade de fazer o bem, nossas facetas sombrias.

Paulo nos adverte contra um desejo um tanto apressado de iluminação e de experiência crística.  Ele sabe que muitas vezes não faz o que quer, apesar de sua proximidade com Cristo.  Mesmo após à conversão a sombra ainda permanece ativa. Às vezes as pessoas que vivenciaram uma conversão por meio de um movimento espiritual querem rapidamente deixar para trás sua história de vida.  Mas isso não leva à verdadeira transformação.  É bem mais provável que em seu caminho espiritual elas carreguem consigo os antigos padrões de comportamento.

O padrão da atribuição da culpa a nós mesmos, que utilizamos quando crianças para nos protegermos do castigo de nossos pais, introduz-se na ação espiritual.  Nós nos dilaceramos nos sentimentos de culpa. A falta de autoconfiança determina também a relação com o diretor espiritual.  As sóbrias frases de São Paulo pretendem evitar que vejamos nossa conversão e nossa redenção de forma otimista demais, como se não tivéssemos mais nada a ver com nossa história de vida anterior.  Só quando trazemos nossa própria história, com todas as suas magos e feridas, a nossa relação com Cristo, é que Ele poderá curar-nos de nossa cisão, na qual continuamos imersos mesmo depois de intensas experiências divinas e extraordinárias vivências espirituais.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s